Posts
O movimento pró-censura
terça-feira, 23 de novembro de 2010
08:38
Confesso que poucas vezes temi como agora que elementos ditatoriais tomem mais força no Brasil. É notório que há no país uma cultura autoritária em alguns partidos e instituições. Contudo, está em curso uma tentativa de controlar a imprensa. Sim, controlar, não existe outra palavra. Políticos e pessoas influentes, principalmente no PT, defendem e tentam constantemente criar controles governamentais dos meios de comunicação. Primeiro, eles tentam denegrir a imagem da imprensa, querendo com que as pessoas passem a sentir repulsa pelas TVs, rádios e jornais estabelecidos (a não ser que concorde com suas ideias). Depois, propõem a “democratização da mídia” ou o “controle social da comunicação”.
Mesmo considerando que toda a mídia inventasse mentiras sobre o governo e que realmente se comportasse como oposição política, isso não dá o direito dos políticos controlarem a comunicação. No Brasil, se alguém se sentir caluniado ou prejudicado por falsas notícias, pode ir à Justiça e pedir reparações. Alguns liberais até condenam o crime por opinião, mesmo que seja ofensiva. Mas a regra que vale no país é essa: sentiu-se caluniado ou difamado, vá à Justiça, prove e ganhe a causa. Se perder, paciência, é o jogo. Então, no Brasil já existem dispositivos que punem as mentiras. Mas serão que são mentiras mesmo? Não. Para a esquerda petista mentira é tudo àquilo que é denunciado contra eles. O mensalão foi uma tentativa de golpe da mídia, nunca existiu. Nem o caso de tráfico de influência de Erenice Guerra, e muito menos a tentativa de sovietizar a sociedade com o Programa Nacional de Direitos Humanos 3. Caso a esquerda apenas criticasse a mídia, dizendo que tudo isso é mentira, menos mal. Mas essa desmoralização diária que eles tentam fazer dos meios de comunicação é parte de um maior, à saber: o controle de conteúdo da mídia.
A presidenta eleita, Dilma, diz que isso não é verdade. Contudo, foi ela própria que assinou o PNDH-III, que tinha dispositivos de controle de conteúdo. Ou seja, eles vão negar até o máximo que querem dissipar a liberdade de expressão no Brasil, mas na prática fazem o contrário. E para isso, utilizam da corrupção da linguagem que é inerente aos de ideologia pró-estado, principalmente os comunistas. E é nesse ponto que reside o maior perigo. Como exemplo temos as chamadas “democracias populares”, que eram na prática regimes comunistas. O comunismo é uma idéia política que só funciona com o totalitarismo, ou seja, ele pressupõe o controle irrestrito da comunicação e o extermínio de toda oposição política. Mesmo pessoas não ligadas à política, mas que representam a “classe dominante”, devem ser assassinadas. Um exemplo foi a morte de crianças da família real russa na revolução comunista. Assim, o comunismo é um regime político que pratica o genocídio (com base em “classes”), aliena a população, não permitindo oposição, e, consequentemente, só funciona com um governo totalitário. Mas sabemos que o senso comum não gosta de ditadura, prefere saber que participa do processo político com liberdade. Então os comunistas simplesmente substituíram a palavra “ditadura” por “democracia popular”. Isso dá um ar de participação política e de mais proximidade com o povo. Coisas que nunca existiram em países comunistas, pois todas as decisões eram tomadas por uma elite burocrática, e qualquer oposição era caso de cadeia, inclusive com campos de concentração em caso de “insubordinação grave”.
Essa mesma corrupção da linguagem tomou os debates sobre o controle da mídia. A esquerda autoritária, petista principalmente, chama de “democratização dos meios de comunicação” ou “controle social da mídia” o que na verdade é censura. Mas o objetivo não é apenas recriar um sistema censor no país, mas também incluir julgamentos ideológicos no próprio (sistema). O PNDH-III representa uma clara tentativa disso: incluía, entre outras coisas, a legitimação de atos criminosos pelos sem-terra, criação de tribunais de esquerda, perseguição aos símbolos religiosos e punição dos meios de comunicação que fossem contra o conteúdo ideológico eles (que eles tentaram enganar com o termo “direito humano”). Alguns se enganam pela guinada pragmática de alguns petistas com a vitória de Lula em 2002. Como o presidente manteve a estabilidade macroeconômica e não tomou medidas socialistas como defendia na década de 1990, isso significou que o PT mudou. Apenas uma parte dele mudou. Ainda há uma corrente forte, que inclui a própria presidenta eleita Dilma, que deseja controlar os meios de comunicação. O próprio Lula diversas vezes mostrou sua face autoritária: tentou expulsar o jornalista Larry Rohter do país, defendeu ditadores que torturam e matam e permitiu que o PNDH-III fosse aprovado.
O plano principal da esquerda autoritária é basicamente: a) denegrir os meios de comunicação perante à sociedade; b) fazer crer que o Brasil necessita de um controle para acompanhar os países ricos (o atual debate do “marco regulatório”, outro caso de linguagem distorcida) e, por fim, c) implantar o controle partidário e estatal da mídia. Ou seja, é necessário colocar a opinião pública contra revistas, jornais, rádios e TVs de prestígio (quem nunca ouviu mentiras como que quem lê ou assiste determinada mídia é manipulado?), acrescentando que vai lutar contra “monopólios” privados ou modernizar os meios de comunicação no Brasil. Não é fácil notar, mas algumas ações fazem parte desse programa autoritário, como as questões tendenciosas que a cada ano tomam o Enem, que é só parte de uma ampla tentativa de levar a ideologia de esquerda para o ensino. A esquerda sabe que não pode do nada implantar a censura no Brasil, pois necessita de colocar na cabeça do senso comum que o controle é bom para o povo e para a democracia. É a corrupção da linguagem a serviço da mais podre face da tirania. A única saída para barrar esse processo é que os meios de comunicação exponham com clareza o que pode acontecer se a censura for aplicada, usando os exemplos da Venezuela, Bolívia e até Cuba, se necessário. O Brasil necessita não de timidez com medo de parecer “imparcial”, mas de um verdadeiro movimento contra a tentativa de destruir a liberdade de expressão.
Corporativismo e institutos brasileiros: um alerta
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
07:36
As ideias liberais ou libertárias defendem, entre outros pontos, a meritocracia. O corporativismo é mais comum em regimes autoritários, apesar de existir também em regimes liberais. Aliás, o corporativismo é típico do ser humano, mas na economia de mercado há processos que inibem tal prática. No socialismo a prática é generalizada, pois o sistema é elitista: apenas o círculo do poder tem benefícios. A democracia também sofre o mal do corporativismo quando não é baseada nos direitos individuais.
Enfim, qual o meu ponto? Dois institutos que divulgam ideias liberais e/ou libertárias no Brasil são extremamente corporativistas. Descobri isso da pior maneira. Existe maior contradição entre defender uma ideologia que é contra o corporativismo e aplicá-lo no dia-a-dia na sua instituição? O Brasil está avançando na divulgação de ideias liberais, mas parece estão se criando “clubinhos” onde um dos objetivos é apenas promover os próprios membros. Isso é lamentável. Não entrarei em detalhes, pois esse pequeno texto não visa divulgar nomes, mas apenas alertar aos que desejam se tornar escritores reconhecidos (como o autor do texto) que não vai adiantar muito escrever bons textos, e sim conhecer alguém da “corte” do instituto.
O corporativismo no Brasil é tão forte que atingiu até institutos pró-mercado. Lamentável.
A verdadeira teoria do imperialismo
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
18:58
Um dos maiores mitos sobre o capitalismo é sua suposta essência imperialista. Diversos autores, seguindo a tradição de Karl Marx, criaram uma teoria onde o processo capitalista implicava numa expansão imperialista. Para esse autor, no sistema capitalista, os detentores do capital, ou burgueses, exploram o trabalhador via mais-valia. A base teórica do pensador alemão é o valor-trabalho, iniciado em termos econômicos por Adam Smith. Segundo essa teoria, o valor do produto depende do trabalho aplicado. A mais-valia é a diferença entre o real valor do produto e o realmente pago ao trabalhador, em forma de salário. Assim, essa diferença é a exploração econômica do burguês sobre o operário. Contudo, a teoria do valor-trabalho foi refutada no século XIX pelos três economistas responsáveis pela Revolução Marginalista. Jevons, Walras e Menger elaboraram, independente, e ao mesmo tempo, a teoria do valor-utilidade. Ou seja, o valor do produto é dado pela utilidade que o indivíduo o atribui. A partir disso, a teoria de Marx então estaria refutada, pois toda sua base teórica de exploração depende exclusivamente da noção de valor-trabalho.
Entretanto, seguidores de Marx resolveram ignorar a Revolução Marginalista, atribuindo-a apenas caráter ideológico. Isso reside no fato de que a teoria marxista depende de uma caracterização ideológica de qualquer fato da realidade. Todos os economistas marginalistas na verdade eram agentes da burguesia, e apenas os marxistas detinham o poder do real conhecimento econômico. Assim, John A. Hobson, Rosa Luxemburgo e Lênin desenvolveram teorias do imperialismo. Para esses autores, o capitalismo tinha necessidade de se expandir através da guerra imperialista para explorar mais-valia em mercados externos. O capital financeiro seria o grande conspirador da história, coordenando todos as forças religiosas, patriotas e militaristas com via de atingir o objetivo máximo de exploração. O sistema capitalista necessitava expandir-se porque o mercado interno em algum momento tornava-se insuficiente, e a saída era buscar outras fontes de exploração. Como o capitalismo é guiado pela ânsia irracional do lucro, qualquer ação que seja feita nessa via é caracterizada como essencialmente capitalista. E a colonização então foi só mais um aspecto do desenvolvimento do processo capitalista. Para Hobson, apenas no socialismo não haveria imperialismo.
As teorias desses autores marxistas sofrem de um defeito claro de incompreensão dos conceitos de capitalismo e imperialismo. Por exemplo, para eles é totalmente plausível se falar em “governos capitalistas”. Contudo, o capitalismo é o sistema de organização dos meios de produção em mãos privadas. Ou, usando um termo mais atual, o capitalismo é o estabelecimento da economia de mercado. Isso significa que o capitalismo não é um tipo de governo, e sim um determinado sistema econômico. Claro que isso não quer dizer que a economia de mercado seja compatível com qualquer forma de governo, ou seja, que ela seja independente do regime político. Governos liberais, por sua característica de respeitar os direitos de propriedade, acabando favorecendo o desenvolvimento do capitalismo. Todavia, é importante notar que o processo capitalista acontece entre os agentes privados da economia, e a única ligação que ele possui com o governo é se este último protege ou não as leis de propriedade. E aqui entra outra questão importantíssima do artigo: se no capitalismo é necessário que se respeite as leis de propriedade, então o que falar das ações violentas do governo, mesmo quando usada em prol de algum capitalista? Aqui entramos numa diferenciação analítica: se um capitalista utiliza sua influência política para fazer com que o governo domine determinada região para que ele possa explorá-la, isso não significa que essa ação está embutida no processo capitalista, ela é apenas uma atitude imperialista. Ou seja, a função analítica de capitalista é diferente da de imperialista. O capitalista é o indivíduo que possui a propriedade dos meios de produção. O imperialista é o que usa da violência para conquistar territórios alheios. Então é condição necessária que o imperialista agrida os direitos de propriedade alheios para conseguir conquistar novas áreas. E se o direito de propriedade é a base econômica do capitalismo, como um curso de ação que agrida esse direito pode ser considerado parte do processo capitalista? Isso significa que os imperialistas não eram imperialistas porque eram capitalistas. Os imperialistas existiam porque o governo intervencionista existia para ser cúmplice nos seus crimes. Um exemplo para esclarecer o leitor: Artur é torce para X time. Ele resolve assaltar um banco. No jornal sai a seguinte matéria: “X time é responsável por incentivos à assaltos a bancos”. Claramente trata-se de uma falácia. E é exatamente isso que fazem aqueles que associam capitalismo e imperialismo.
Uma verdadeira teoria do imperialismo tem que se pautar na origem desse tipo de ação violenta: roubar a propriedade alheia para si. Ou seja, o imperialismo é apenas uma parte da teoria do intervencionismo. É a junção de governo com empresários que resolvem não competir apenas no mercado, mas também obter renda roubando. Então a teoria do imperialismo tem o seguinte formato: foge de explicações de processo de mercado capitalista, ou seja, com produção e trocas voluntárias, e cai na análise política de explorar outros países pelo roubo. A renda obtida ao vender produto no mercado é diferente daquela obtida com conquistas imperialistas. O erro de teóricos como Hobson, Luxemburgo e Lênin é não compreender a diferenciação analítica da função do capitalista e do imperialista.
Agora que sabemos a real natureza do imperialismo, cabe perguntar: então o que representa o imperialismo como ação do governo? A planificação estatal máxima nas relações internacionais. O governo toma para si o direito de subjugar outros povos e estabelecer seu poder como legítimo em novos territórios. E isso só é possível se o governo não respeita os direitos de propriedade. Os regimes socialistas são imperialistas por natureza, e o maior exemplo foi a União Soviética, que usou do poder militar para implantar a planificação estatal em vários países. Contudo, países intervencionistas ou de economias mistas também podem ser imperialistas. Os EUA são mais liberais que outros países em vários aspectos, mas possuem uma política externa imperialista, com poder militar em todo o mundo. O capitalismo, ou economia de mercado, é apenas uma forma de organização econômica dos meios de produção, as ações imperialistas devem ser estudadas à luz de um processo de intervenção estatal, pois representam um processo de roubo de renda alheia, ou seja, de agressão aos direitos de propriedade.
O Conceito de Neoliberalismo
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
08:32
1. 1. Um conceito marxista
Neoliberalismo sempre foi um conceito confuso. Em quase todas as situações é citado de forma negativa: trata-se de um mau sistema. Isso ocorre porque o neoliberalismo é visto como representação ideológica máxima do capitalismo. E o sistema capitalista é dividido em duas classes: capitalistas e explorados. Os primeiros exploram os segundos através da mais-valia. Essa linha de pensamento é tipicamente marxista. O neoliberalismo então implica no livre mercado: desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social, desregulamentação de mercados, proteção da propriedade capitalista, entre outras ações. E o governo cuidando das pessoas é uma forma de amenizar o mal que o sistema capitalista causa nas pessoas.
Se aceitarmos tais termos estamos caindo num debate claramente marxista. E aceitar o marxismo é cair numa discussão apenas ideológica. Apesar de já estar provado por vários autores que existe uma ciência positiva e outra normativa, os marxistas insistem em atribuir conteúdo ideológico em tudo. É fácil entender isso, porque o próprio marxismo nasceu assim. Caso os marxistas rejeitem a ideologia em outras escolas econômicas, estariam negando sua própria base. Então esse caminho é impossível. Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek provaram que a economia planificada, ou marxismo, é impossível. Mises vai além e diz que Karl Marx confundiu classe com casta. Para Marx, a sociedade é composta por classes separadas, e as que estão no poder não permitem mobilidade. Mises demonstrou que no capitalismo não existem castas econômicas: os que conseguirem atingir a demanda das massas ganharão dinheiro, não importando sua origem ou escolhas pessoais.
Na prática nenhuma das profecias de Marx se cumpriu: a revolução nos países capitalistas, quedas na taxa de lucro, aumento da classe operária etc. Mesmo assim, os marxistas criaram desculpas para tais falhas, como, por exemplo, uma teoria do imperialismo. O filósofo Imre Lakatos chamou o marxismo de programa degenerativo justamente por, no lugar de abandonar as bases erradas da teoria, tentou proteger as ideias originais de Marx. Todavia, não é intenção deste artigo se estender sobre esse debate. Apenas gostaríamos de deixar claro que o neoliberalismo é um conceito tipicamente marxista. Quaisquer autores que se pegue para ler sobre esse conceito, seja Perry Anderson, Atílio Bóron etc, no final se chega a mesma conclusão: o neoliberalismo é o representante ideológico máximo da economia de mercado e dos capitalistas e seu programa político é a desregulamentação dos mercados.
2. 2. O programa político: Consenso de Washington
Em 1990, John Williamson publica What Washington Means by Policy Reform, artigo que daria origem ao Consenso de Washington. O artigo contém dez propostas para a América Latina que tinham dado certo em outros países. As propostas consistiam numa tentativa de modernização do Estado visando substituir o de Bem-Estar. Defendia-se o equilíbrio fiscal e a prioridade na eficiência nos gastos públicos. Ou seja, seria saudável se os países não mais incorressem em altos déficits. Também era preciso visar a eficiência dos gastos públicos, não necessariamente diminuindo-os, mas criando uma máquina burocrática mais limpa e que atendesse os anseios dos cidadãos. Uma reforma tributária também seria necessária, pois altos impostos indiretos acabam pesando mais no bolso do pobre, e a base do imposto de renda deveria ser ampla com alíquotas marginais reduzidas.
A taxa de juros e a de câmbio deveriam, segundo o CW, ser estabelecidas pelo mercado, e não controlada pelo governo. Os direitos de propriedade também deveriam ser amplamente defendidos pelos governos, pois sua fraqueza jurídica afasta investimentos. Na América Latina da década de 80 os setores da economia eram amplamente cartelizados e existiam diversas estatais. Assim, o CW propôs que se privatizassem estatais ineficientes (não necessariamente todas) e que se desregulamentassem os setores privilegiados, pois tal estado inibia a concorrência. Para finalizar, o país deveria abrir seu mercado para o Investimento Estrangeiro Direto.
Esse é um resumo das propostas do CW. Mais detalhes ver o artigo do Paulo Roberto de Almeida, O Mito do Consenso de Washington, e o próprio artigo do Williamson.
3. 3. O que é livre mercado?
Notamos acima que o Consenso de Washington com certeza defendia um programa com mais liberdade econômica que o velho Estado de Bem-Estar. Contudo, concluir que por isso o CW é pró-mercado é um equívoco. Na verdade, o CW propõe melhorar o arranjo institucional do Estado. Ou seja, é um modelo que defende uma melhor eficiência do governo nos assuntos econômicos. Mesmo o Estado de Bem-Estar considerava a economia de mercado importante, mas bem menos do que o modelo do CW.
Para clarificar o assunto para o leitor, vamos utilizar a distinção defendida pelo economista Fábio Barbieri. Para o autor brasileiro as economias são mistas, possuindo características de economia de mercado e de planificação. Hong Kong é considerada a economia mais livre do mundo, mas não se pode dizer que lá exista uma economia de mercado plena. Há um grau de planificação econômica por parte do governo, mesmo que mínimo. Um leitor sagaz já pode imaginar então que algumas linhas de pensamento econômico acham que certo grau de planificação é necessário para alcançar a eficiência econômica. É o que acontece, por exemplo, com a Escola de Chicago, que defende a existência de uma entidade monopolista da moeda, apesar de defender também várias desregulamentações. Na Escola Austríaca se encontra economistas que defendem a economia de mercado plena, como Murray Rothbard, e outros que defendem uma pequena intervenção governamental, como Ludwig von Mises. Para Rothbard, o Estado é desnecessário e sempre causa distorções nas ações dos indivíduos, então a máxima eficiência econômica só é alcançada com um arranjo institucional apenas com agentes privados.
Outros economistas defendem a total planificação da economia, que é o caso dos socialistas. Qualquer arranjo de mercado é ruim, então o governo deve controlar toda a economia. Tal política é típica de regimes socialistas, como a Alemanha Nazista e a União Soviética. Mas, no geral, os economistas atuais defendem a economia mista. E o Consenso de Washington é apenas uma reforma das intervenções do governo, buscando mais eficiência, e abertura controlada para o comércio internacional. Se for perguntado a um socialista o que ele acha das propostas do CW, provavelmente ouviremos que tem “mercado demais”. Se for perguntado para um rothbardiano, provavelmente ouviremos que há intervenção demais. Ou seja, o CW não defende planificação econômica e tampouco economia de mercado, é apenas reforma do velho intervencionista estatal. É o que chamamos de Novo Intervencionismo (ou neo-intervencionismo). Se defendesse o livre mercado ou economia de mercado, o chamado “neoliberalismo” defenderia apenas soluções de mercado (ou seja, com instituições e agentes privados), sem nenhum tipo de arranjo governamental.
4. 4. Debate teórico: uma refutação
A sessão anterior serviu para mostrar que as propostas ditas neoliberais do CW são na verdade neo-intervencionistas. Nesta mostraremos como as propostas deveriam ser caso quisessem defender a economia de mercado. A primeira parte das propostas trata da busca de eficiência do estado através do equilíbrio fiscal, melhor gasto público e reforma tributária. Essa também é a parte mais fácil de esclarecer: são todas medidas de arranjo governamental, ou seja, de controle de mercado. Então, essas propostas vão de encontro à economia de mercado, não a favor. O CW também defende reformas tímidas sobre a privatização e desregulamentação, pois uma visão de mercado defenderia simplesmente a extinção das estatais e todo tipo de regulamentação governamental.
A taxa de juros e de câmbio, a princípio, parece ser dois pontos de paz entre a economia de mercado e o CW. Entretanto, um olhar mais cuidadoso nos trabalhos de Mises e Hayek revela o que seria um sistema financeiro de mercado: bancos privados emitindo moeda. Ou seja, num sistema financeiro de mercado não existiria banco central. Mais uma vez, o CW não defende a economia de mercado. A defesa dos direitos de propriedade e a abertura aos investimentos estrangeiros parecem ser o único ponto de comum acordo entre o CW e uma economia de mercado.
O debate aqui não é tentar descobrir se um arranjo só com instituições de mercado é bom ou possível, e sim que o CW não defende tal idéia. O correto significado dos conceitos é um pressuposto importante para qualquer debate e, infelizmente, na atualidade se tem usado o termo “neoliberalismo” associado ao livre mercado com intensa irresponsabilidade.
5. 5. Evidência empírica: uma refutação
Devo confessar para os leitores que tenho pena de Fernando Henrique Cardoso. Apesar de ele ter se esforçado ao máximo para interferir no mercado, não foi o bastante: acabou sendo conhecido como pró-mercado (e como se sabe, isso necessariamente quer dizer uma coisa ruim no Brasil). E o que fez FHC para merecer tais títulos?
Como se sabe, até a década de 1980, era lugar-comum que o Estado de Bem-Estar Social era superior. Nessa década, essa idéia (na política prática, na teórica já era questionada) começou a perder força e líderes como Reagan e Thatcher desregulamentaram alguns mercados em seus países. Na década de 1990, no Brasil, Collor iniciou o programa de desestatização, onde, entre outras coisas, algumas empresas estatais seriam passadas para a iniciativa privada. Inclusive, Collor também é acusado de neoliberal, apesar de ter confiscado a poupança de toda a nação. Algumas outras inovações também foram trazidas: como a tentativa de se alcançar um equilíbrio fiscal, o estabelecimento de metas inflacionárias, independência do banco central, abertura do mercado financeiro etc. Com certeza foi uma mudança forte na política econômica. E quem mais a aprofundou foi FHC. E por isso ele é acusado de neoliberal. Aqui entra a parte mais interessante do artigo: o presidente-sociológo aumentou impostos, gastos públicos, criou 10 agências reguladoras, privatizou 8 empresas com participação do Estado (!) e grupos com influência política (fundos de pensão) e no começo do governo fixou o câmbio. Mesmo assim, é taxado de pró-mercado. Tem mais: segundo o índice de liberdade do Fraser Institute as leis de propriedade privada pioraram no Brasil na época de FHC. A área que mais teve melhora em relação à desregulamentação foi o mercado financeiro. Durante a década de 90 o Brasil se tornou mais livre em relação à década de 80. Contudo, os índices de liberdade (tanto o do Fraser Institute como o da Heritage Foundation) mostram que o país passou longe de alguma reforma pelo livre mercado, se mantendo numa das economias mais intervencionistas do mundo.
Não é preciso estudar o índice de todos os anos do Brasil (como o autor do presente artigo fez), basta apenas ler os feitos de FHC no parágrafo anterior e raciocinar se isso tem alguma relação com o livre mercado. Então, dizer que FHC foi pró-mercado por privatizar algumas estatais é puro desconhecimento dos dados. É falta de estudo e necessidade de repetir jargões da esquerda. O que houve na verdade foi uma mudança no modelo de intervenção, mais leve, na verdade. E isso irritou os pensadores radicais pró-estado. E, para eles, a saída foi acusar os neo-intervencionistas (como Collor e FHC) de serem entreguistas. É isso o que acontece quando se mistura o debate acadêmico com o debate político: falácias, mentiras, manipulações e jogos sujos. Essa é a essência da política, e ela contaminou o debate nas academias.
6. 6. Novo Intervencionismo
O leitor pode indagar que no artigo apenas tentou-se demonstrar que o termo neo-intervencionismo é mais correto que neoliberalismo. Todavia, a questão vai além. Quando se associa o liberalismo de alguma forma às propostas do CW ou do livre mercado, está se cometendo uma falácia, pois de nenhuma forma as ditas propostas (no conjunto, como vimos) neoliberais representam propostas de uma economia de mercado. Então a questão é mais profunda que pura lingüística. É questão de não cometer erros conceituais na investigação sobre o grau de intervenção e liberdade na economia. Neoliberalismo não existe. O Consenso de Washington possui propostas neo-intervencionistas. Os países que reformaram sua política econômica nos anos 1990 buscaram o neo-intervencionismo. O período pelo qual passamos na década passada e continuamos até hoje pode se chamar a Era do Novo Intervencionismo.
